Immortal - All Shall Fall (2009)

Um post para recuperar a essência beligerante deste espaço de duelos musicais.

Protagonizo outro retorno musical neste blog. Depois de 7 anos, um dos pioneiros e ainda principais bandas do Black Metal voltou. O Immortal, após o Songs Of Northern Darkness, de 2002, resolveu encerrar suas atividades, deixando meio órfão quem era fã do estilo. A banda sempre foi famosa, entre outras característica, por dois pontos: As fotos tosquíssimas dos integrantes da banda (se não acredita, entre no Google Imagens e procure) e a extrema qualidade com que faziam sua música.

Mesmo sem recursos nos primeiros álbuns, via-se que a banda se destacava dentro do cenário clichê do Black Metal, que começou na Noruega no final dos anos 1980 e depois explodiu para o mundo. E isso perdura até hoje. A música feita por Abbath, Appolyon, e Horgh segue a mesma linha desde seu início: Extremismo musical, sem ser aquele tipo de som-ventilador. O corpse paint e a excelente performance dos músicos, tanto em estúdio, quanto no palco, é um atestado da supremacia de um dos reis do Black Metal.

Em All Shall Fall, a banda acertou em cheio ao não mudar radicalmente sua forma de escrever nem de tocar. As letras são diretas, sem floreios. A primeira faixa, homônima ao Cd, começa com Armed in the fires of combat, The end will come fast on this day, Stronger than the gods we fought, Triumphant for the dark prophecie.

O disco todo não se trata de um satanismo tosco e sem profundidade, como é normal em bandas atuais. Por outro lado, a banda não enveredou pelas bandas do Punk Rock, como outros pilares do Black Metal, como o Darkthrone e Satyricon fizeram, descaracterizando completamente sua sonoridade.

É exatamente esse aparente imobilismo que faz o Immortal ser tão cultuado. A banda parece ter parado no tempo, desde o começo dos anos 1990, seguindo a mesma prática até hoje. Mas, como eu fiz questão de frizar, é apenas aparente. A maturidade dos músicos é perceptível. Em The Rise of Darkness a banda consegue traduzir soa força e seu extremismo logo nos primeiros segundos da música. Bateria nas alturas; riffs sujos, uma má-produção para disfarçar, e um som direto, cortante, sem frescura.

Um viva para o conservadorismo. Um Hail para os mestres. Hail, Immortal!

Immortal - All Shall Fall

Vampire Weekend - Vampire Weekend (2008)

Quando se pensa que o rock já esgotou suas possibilidades e caminha para uma débil e eterna repetição de si mesmo, com as bandas voltando no tempo para angariar novas ideias, eis que surge a porra do Vampire Weekend e caga pra todo esse revival. A primeira crítica que li sobre esse disco era no mínimo suspeita. "Mistura rock com ritmos africanos", dizia. Ritmos africanos? Que merda é essa? Outro Live Aid? Paul Simon e suas tarimbas world music? Sting convocando uns músicos do Quênia pra uma turnê? Youssou N'Dour ganhou um rival? Não. A parada aqui é autêntica.

A banda novaiorquina foi eleita por vários veículos como a grande revelação indie de 2008. E, de fato, eles fizeram por merecer. A fusão com os ritmos africanos não soa ridícula como se imagina. "Mansard Roof" pode assustar um pouco, com sua batucada meio axé, mas é só impressão. Aos poucos, os ecos da savana vão diluindo-se, tornando as músicas mais uniformes e coerentes. "M79" ficou até meio conhecida aqui no Brasil, pois foi incluída num comercial da Vivo. "A-Punk" e "Campus" são as mais elétricas do disco, onde os teclados ficam mais em segundo plano, dando espaço para as guitarras aparecerem. "Bryn", pra mim, é a música do Calypso. Não sei porque, só acho seu começo parecido com alguma coisa da banda paraense. Mas é uma música bonita, meio triste.

"I Stand Corrected" se encaixaria fácil numa trilha sonora de qualquer filme. E o disco encerra, num apropriado clima de despedida, com "The Kids Don't Stand A Chance". É umas das coisas mais divertidas que tenho pra escutar. E se eles ganharam todos os elogios possíveis da mídia especializada, foi por mero merecimento.

01. Mansard Roof
02. Oxford Comma
03. A-Punk
04. Cape Cod Kwassa Kwassa
05. M79
06. Campus
07. Bryn
08. One (Blake's Got A New Face)
09. I Stand Corrected
10. Walcott
11. The Kids Don't Stand A Chance

Vampire Weekend

Top 20 - #18 - Live - Mental Jewelry (1991)

Como uma banda que começa uma trajetória se nomeia como "Black Bonzo"? De toda forma, vou checar.

Um clássico. Simplesmente um clássico. Em 1991, o chamado "Rock Alternativo" ainda não era uma alcunha muito usada, até onde eu sei. Nos EUA o mundo estava sendo sacudido pelo movimento Grunge, Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains num outro momento, entre outros. Eis que, em York, Pensilvânia, surge o Live. Formada no ano de 1989, por Ed Kowalczyk, Chad Taylor, Patrick Dahlheimer e Chad Gracey. Segundo Ed Kowalczyk, o nome da banda foi escolhido por acaso. Eles colocaram vários nomes no papel, dobraram e colocaram num boné. Live foi o nome sorteado. A maioria de suas músicas falam sobre questionamentos sociais, amor e liberdade.

Esse registro em questão é o primeiro da banda. Um marco na carreira do Live, Muitas das músicas são baseadas nos escritos do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti. O indiano constantemente ressaltou a necessidade de uma revolução na psique de cada ser humano e enfatizou que tal revolução não poderia ser levada a cabo por nenhuma entidade externa seja religiosa, política ou social.

O som do Live, falando um pouco dele, é sem delongas. Rock/Pop clássico, com letras bem montadas, refrões grudentos ao extremo, que aparecem na sua cabeça quando você tá naquele ônibus cheio, e precisa de um desconto da vida desgraçada. Atualmente chamam o Live de Post-Grunge. Porra nenhuma. Guitarras melodiosas, aliadas ao excelente vocal do carequinha Ed Kowalczyk, fazem do Live um som para se ouvir em qualquer lugar. As canções diferem demais, e ao mesmo tempo têm identidade. Canções mais depressivas, mais velozes e agressivas. Tem pra qualquer freguês.

As duas primeiras faixas do CD são os maiores destaques. Pain Lies On the Riverside e Operation Spirit dão o tom da complexidade que você não espera de uma banda que faz um som aparentemente simples. Mirror Song é mais calma, melancólica. Introspectiva. E é assim que é ouvir o Live: Uma montanha-russa. Um disco fantástico, recheado de feeling e competência técnica. Como disse, clássico!

Live - Mental Jewerly



Boas novas vindo da Escandinávia, e não são sacrificadores de cordeirinhos que cantam em antigos idiomas pagãos e estupram ninfas no meio dos bosques. Apesar do nome de ração, o Black Bonzo desce redondinho. Na nova safra das bandas que andam enchendo a cara de rock progressivo, promovendo um revival dos 70's, o septeto sueco merece uma grande estrelinha na testa. Uriah Heep, King Crimson, Pink Floyd, tá tudo aqui, com aquela beleza de pegada hard rock que fazia a festa dos bangers da época. Tem um pé na temática nerd, mas sem levar a sério (mas também sem usar pra fazer figurino, como o Wolfmother).

O disco já abre com uma lapada fenomenal, na faixa-semi-título "Guillotine Drama". Já entram assustando e a faixa muito me lembra a igualmente sensacional "Aberinkula", com sua pegada meio circense, que, coincidentemente, abre o The Bedlam In Goliath, do Mars Volta. As bandas até tem algumas semelhanças no estilo (numericamente também), mas o Black Bonzo irá agradar a parcela que prefere um som mais limpo e menos caótico. O vocal de Magnus Lindgren tem um timbre parecido com o de Maynard James Keenan, do Tool.

Os interlúdios acústicos clássicos da década de 70 também estão presentes nesse álbum, como na faixa "War Machine". E é só petardo. Um discaço, pra ouvir junto com seu coroa cabeludo.

01. Guillotine Drama
02. Because I Love You
03. Zephyr
04. Sudden Changer
05. War Machine
06. Hou Do You Feel?
07. Tell Me The Truth
08. Nest Of Vipers
09. Supersonic Man

Blind Guardian - Nightfall In Middle-Earth (1998)

Literatura na música? Incoerente, algo que não pode acontecer. Impossível transmitir todo o significado de um texto consagrado em um punhado de melodias, não concorda? A banda alemã de Heavy/Power Metal Blind Guardian vai contra essa visão e incorpora uma das histórias mais complexas escritas por J. R. R. Tolkien, mesmo autor de "Senhor dos Anéis", em um trabalho único. Em "Nightfall in Middle-Earth", o livro "Silmarilion" é incorporado em 22 faixas que contam sobre a Guerra das Jóias e de Morgoth, primeiro senhor negro de Arda. O material foi um marco para o grupo em 1998. CD válido tanto para fanáticos pelos livros, quanto para fãs da banda e para pessoas que ainda não estão completamente familiarizadas sobre Tolkien.

O álbum definiu a carreira do Blind Guardian. Embora pesado nos interlúdios, "Nightfall in Middle Earth" é um disco forte que tem suas reviravoltas. Feito para ser escutado por completo, o sexto álbum da banda é talvez o melhor trabalho dos mesmos até hoje.

Com sua formação clássica, o Blind contou nesse disco, fora os músicos convidados, com Hansi Kürsch nos vocais, Marcus Siepen nas guitarras, Andre Olbrich nas guitarras de base e Thomas Stauch na bateria. Cada faixa do disco conta de forma cronológica os acontecimentos do Silmarillion. Em 1998 o uso de textos integrais em obras musicais era ainda pouco usado. Fora o Blind Guardian, talvez apenas o Summoning também se baseasse inteiramente em Tolkien.

A primeira faixa, War Of Wrath, por exemplo, fala sobre o conselho de Sauron a seu mestre Morgoth de fugir dos triunfantes valar na Guerra da Ira. Morgoth envia-o para longe e reflete sobre os acontecimentos que levaram à sua derrota. Toda faixa tem sua explicação. Mas isso não impede que quem não seja tão fã de Tolkien, como este que vos escreve, escute o disco. Essa obra-prima tem alguns petardos que se tornaram hinos dentro do Heavy Metal, como Into The Storm, Nightfall, Mirror Mirror, Time Stands Still, entre outros.

Do tempo que o Blind Guardian não fazia "música de elevador", esse trabalho mostra que o Power Metal não precisa ser gay, com coros que duram 10 minutos, e que pode sim ser direto, potente, e mesmo assim fazer uso de orquestrações e teclados. Os vocais de Hansi estão no auge, e a bateria de Stauch, que atualmente não está mais na banda, é matadora. O disco é completo. Um marco na música, e que está no hall dos melhores. Para o amante do bom Power Metal, obrigatório. Para o amante da boa música... Obrigatório?



Blind Guardian - Nightfall In Middle-Earth

John Frusciante é um cara inquieto. O guitarrista do Red Hot Chilli Peppers mantém vários projetos solo paralelamente à banda. Um deles foi (de "não é mais") o Ataxia, que formou junto com Joe Lally, do Fugazi, no baixo e Josh Klinghoffer do The Bycicle Thief nas panelas. A banda teve uma carreira breve, durando dois shows e dois álbuns, escritos e gravados em duas semanas, porém com um intervalo de lançamento de 3 anos entre eles.

Sobre o som, é seco e direto. O bom e velho trio guitarra-baixo-bateria, sem firula. Muito lembra o Shellac, de Steve Albini, que em breve eu solto por aqui. É noise, guitarras agudas e baixo ribombante, pulando na caixa de tão grave. Todas as faixas tem uma levada pesada, lenta e arrastada, mas extremamente relaxante.

Frusciante aparece nos vocais em "Dust", "The Sides" e "Addition", enquanto Lally canta em "Montreal" e Klinghoffer assume o microfone em "Another". Não dá pra destacar nenhuma faixa, pois é um álbum homogeneamente bom. Mas a minha preferida é "The Sides". É uma pena o projeto ter sido descontinuado. Porque se eles conseguiram escrever um álbum acima da média em meras duas semanas (não ouvi o AW II, com o restante das músicas), ainda tinha muito coelho pra sair dessa cartola. Mas fica o registro.

01. Dust
02. Another
03. The Sides
04. Addition
05. Montreal

Ataxia - Automatic Writing

Top 20 - #19 - Therion - Gothic Kabbalah (2007)

Taí, fiquei curioso pelo Silvio Rodríguez. Vou dar uma sacada e, se curtir, faço uma baladinha cubana, ai ai ai!

O Therion é uma banda, antes de tudo, imprevisível. Seja nas constantes mudanças em sua formação, que conta com o fundador Christofer Johnsson como único representante inicial. Fora ele, a banda é uma verdadeira concha de retalhos, com diversos músicos convidados ou contratados para turnês ou até mesmo gravação de discos oficiais de estúdio. O que poderia ser algo nocivo para qualquer outra banda, soou interessante no Therion. A banda sempre se reinventou, sempre buscou ultrapassar limites e, como sempre, ser original. Por mais paradoxal que essa última frase possa parecer.

Mas, mesmo imprevisível, a banda consegue deter algumas características que a classificam como "singular" ou "inovadora". Em 1989, lançando sua primeira demo, o Therion ainda era chamado de Blitzkrieg, e detinha uma sonoridade mais agressiva, mais relacionada com o Death Metal. A virada começou a acontecer em 1992, com o lançamento de Beyond Sanctorum, onde a banda começou a usar vocais limpos, teclados e instrumentos do Oriente Médio.

O álbum Theli lançado em 1996, consagra a banda como precursora de um novo estilo musical que ia além do Heavy Metal. As letras inspiradas em livros e vivências de Christofer, foram escritas muito tempo antes, mas a banda ainda não havia alcançado a maturidade necessária para que estas faixas fossem gravadas.

A partir daí, a banda começou a mesclar algo que era incomum para a época: Orquestras sinfônicas como parte integrante do disco, e não como "participação especial", além de cantos gregorianos e coros medievais. Na metade da década de 1990, isso ainda era visto como novidade e desconfiança. O Therion, entre outras bandas, foi a banda responsável pela disseminação dessa fusão do Heavy Metal com outros gêneros musicais.

O Gothic Kabbalah não é o melhor disco do Therion, mas é um marco na carreira da banda, pelo supremo uso de orquestrações, e do vocal potente de Mats Levén, consagrado vocalista, que tem uma participação espetacular no CD. O disco é uma fusão de tudo o que a banda já usou, ao longo de 20 anos de estrada: Passagens Black Metal; pura música clássica, música ambiente, gestas medievais.
Ouvir o Therion é sempre uma redescoberta, a cada acorde. Quem der uma sacada nisso, vá com certeza que não ouvirá clichês.

Disco 1
Disco 2
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