Machines Of Loving Grace - Concentration (1993)

Os anos 80 viram o espocar de uma insuportável onda de música eletrônica que, se não mostrou qualidade suficiente, serviu para influenciar as próximas décadas. Os tecladinhos, samplers e sintetizadores fizeram a cabeça de muita gente, e essa gente acabou encontrando alguma utilidade para essa parafernália. Influenciados pelas bandas que se salvaram dos 80's, como Depeche Mode, New Order e Duran Duran, eles adicionaram o elemento rock que faltava ao adocicado synth pop da época. Mas quem são eles, oh, quem são? Provavelmente Trent Reznor e Al Jourgensen, criadores do Nine Inch Nails e Ministry, respectivamente, e fundadores do so called rock industrial, no fim da supracitada década.

Alguém me perguntou uma vez sobre o Nine Inch Nails e eu disse que era uma banda de rock industrial, no que o sujeito retrucou "rock industrial? Que é isso? Rock de usineiro?" Isso foi pouco depois de conhecer a trilha d'O Corvo, de 1994, recheado de bandas do estilo. Foi ali que comecei a simpatizar com as batidas eletrônicas misturadas com guitarras pesadas e efeitos mecânicos e metálicos. Uma das que mais me chamou a atenção foi o Machines Of Loving Grace, banda do Arizona. A música em questão era "Golgotha Tenement Blues", feita exclusivamente para o filme, e ela tinha um clima sombrio, pesadão, com sons de ferramentas caindo no chão. Isso foi fantástico pra mim, e até hoje a música soa extremamente atual. A banda acabou em 97 e depois de um hiato provocado pela escassez de mp3 da época, só consegui acesso ao restante do material da banda recentemente. Esse Concentration é o primeiro álbum da banda e, pra mim, o que tem mais atmosfera.

O baixo é bastante acentuado na maioria das músicas e a guitarra passa como serra elétrica por elas. E o som, de fato, dá a impressão que o disco foi gravado entre correntes, rolamentos, esteiras e máquinas de uma fábrica com pé direito monstruoso. Tudo ecoa soturnamente. Grande disco, de um gênero que praticamente foi aposentado.

01. Perfect Tan (Bikini Atoll)
02. Butterfly Wings
03. Lilith/Eve
04. Albert Speer
05. Limiter
06. If I Should Explode
07. Shake
08. Cheap
09. Acceleration
10. Ancestor Cult
11. Content?
12. Trigger for Happiness


E pra quem quiser curtir a música da trilha de O Corvo, um industrial na sua mais pura essência, ei-la aqui:

Green Carnation - The Quiet Offspring (2005)

Existem certas bandas que simplesmente não conseguem ser encaixadas satisfatoriamente em nenhuma classificação. Não são rotuladas de tal forma, que se agrade a gregos e troianos. Isso soa originalidade, algo tão raro atualmente, na indústria musical. Quantas e quantas vezes você ouve uma banda de Death, Black, Melódico, Folk e tem a certeza de já ter ouvido aquilo antes? Maior merda. Chega se perde o tesão de continuar a ouvir o CD.

Não ocorre com o Green Carnation. A banda começou como um projeto paralelo do ex-guitarristaa do Emperor e Carpathian Forest, Tchort. Saindo um pouco da esfera extrema do Black Metal que suas duas bandas apresentavam, Tchort buscou algo mais intimista, pessoal. Junto com Kjetil Nordhus, que foi por anos o vocalista do Tristania, conseguiu fazer um som com cara e sonoridade próprias, totalmente único.

A banda começou suas atividades no início dos anos 1990 e alcançou reconhecimento rapidamente, em 2003, com o lançamento do "A Blessing In Disguise". O disco, classificado por revistas especializadas como "NeoProgressive Metal" agradou em cheio, mesmo sendo classificado como tendo uma audição difícil, complicada de "engolir" nas primeiras tentativas.

Em 2005 foi lançado o disco analisado aqui em questão. The Quiet Offspring levou a banda para um lado mais comercial e acessível a novos ouvidos. O que quase sempre é sinônimo de desgraça para muitas bandas, não alterou em nada o processo criativo do Green Carnation.

O álbum fala das experiências de todos os integrantes. Experiências de vida de uma maneira geral. Não existe um direcionamento específico. Fala da complicada convivência em sociedade de pessoas críticas, questionadoras; de desilusões amorosas; do choque de lidar com a morte pela primeira vez. Da relação entre vida e morte, de como nós ainda temos dificuldades extremas em encarar e lidar com esses fatos.

O disco é mais fácil de ouvir justamente pela inclusão de riffs mais comerciais na maioria das músicas. A primeira faixa do disco, homônima ao título do mesmo, apresenta isso logo com 5 segundos de música. Riffs com alta distorção, beirando o New Metal, podem chocar os fãs mais antigos do grupo, e maravilhar quem está se encontrando com a banda pela primeira vez.

Mas, com o passar das faixas, o Green Carnation mostra que continua o mesmo grupo intimista, pessoal e conflituoso de sempre. Faixas como A Place For Me, de autoria de Tchort, onde o mesmo se mostra totalmente perdido em suas escolhas de vida, ou em Purple Door, Pitch Black, candidata a mais bela faixa do disco, com uma introdução esplêndida, onde o vocalista se mostra descrente com a continuidade dos homens, em "so save me, I'm falling, and I don't have the strenght to go on", mostram que todas as características da banda estão presentes.

Em Dead But Dreaming, os riffs-facilitadores voltam, e mostram que é perfeitamente possível fazer um som acessível ao grande público, e de excelentíssima qualidade.

Sou dos que acham que se o guitarrista do Green Carnation peidar, vai ser foda. A banda entrou num hiato indeterminado depois de 2007, e eu sigo firme e forte em minhas macumbas para que eles voltem. O que é bom tem que perdurar, e 17 anos é muito pouco tempo.


Green Carnation - The Quiet Offspring

The Flaming Lips - Embryonic (2009)


Maldita hora que fui inventar um Top 30. Esse disco só apareceu depois, e certamente ficaria entre os 10 melhores. Entre 0s 5, aliás. Ou até entre os 3. Se brincar, desbancava o número 1. Disco do ano. Melhor. Se Ok Computer foi o grande disco dos anos 90 (foi mal, Nevermind), esse é o melhor dos anos 2000, ganhando o título aos 45 do segundo tempo.

Seria pouco provável que uma banda com 26 anos de estrada lançasse um petardo desses nessa altura do campeonato, mesmo com seus aclamados últimos álbuns. Uma das poucas bandas no cenário atual que consegue manter tamanha regularidade depois de tanto tempo. Pois, o som do Flaming Lips preza pela psicodelia extrema. Uma heterogeneidade que sempre pega os mais despreparados de surpresa. E ainda assim, com toda a crítica favorável e os prêmios, a banda consegue se manter fora do mainstream.

Tenho pouco pra falar desse Embryonic. É simplesmente fantástico. Lindo em cada acorde sujo que permeia todas as 18 faixas. Velho, eles usam HARPAS! Um instrumento quase extinto e obsoleto. E eles as usam com propriedade. Os demais arranjos de cordas são sensacionais, como em "Scorpio Sword" e "Aquarius Sabotage". A faixa que a sucede, "The Impulse" é a mais retrô de todas, impulsionada pelo vocoder de Wayne Coyne. "Worm Mountains" é uma porrada vigorosa, a melhor do disco, com participação do MGMT. "Virgo Self-Esteem Broadcast" muito me lembra a parte final de "Steam Will Rise", do Silverchair, porém com requintes de telescópio. Linda. "I Can Be A Frog" é uma música bonitinha, que conta com a participação de Karen O, do Yeah Yeah Yeahs, nos vocais gravados por telefone, onde ela imita os animais que Wayne vai pedindo durante a música.

Porra, não vou falar mais dessa obra de arte. É perfeito. Wayne Coyne admitiu ter bebido de fontes como o Psycho Graffiti do Led Zepellin e o White Album dos Beatles. E o disco é propositalmente cheio de ruídos e mal-gravado. Puta que pariu, é foda!

01. Convinced Of The Hex
02. The Sparrow Looks Up At The Machine
03. Evil
04. Aquarious Sabotage
05. See The Leaves
06. If
07. Gemini Syringes
08. Your Bats
09. Powerless
10. The Ego's Last Stand
11. I Can Be A Frog
12. Sagittarius Silver Announcement
13. Worm Mountain
14. Scorpio Sword
15. The Impulse
16. Silver Trembling Hands
17. Virgo Self-Esteem Broadcast
18. Watching The Planets
2004 foi um anoi extremamente produtivo, em termos de grandes lançamentos no - meu - mundo musical. Bandas como Die Apokalyptischen Reiter, Amon Amarth e Dargaard lançaram CDs que podem ser facilmente enquadrados como seus melhores, ou um dos melhores.

No caso do Orphaned Land, foi um pouco diferente. A banda vinha de um longo hiato de mais de 6 anos sem lançar nenhum disco de estúdio. Muitos achavam que a banda tinha, inclusive, encerrado as atividades. Ledo engano. Os israelenses executam um Folk característico do Oriente Médio: Instrumentos musicais existentes apenas naquela região do globo, tornam o som da banda único, englobando música Folk, popular de Israel, Death Metal, música progressive, percussão oriental, entre outras aventuras. Tudo feito com uma elegância e técnica ímpar.

O quinteto, formado por Kobi Farh, Yossi Sassi, Matti Svatizky, Uri Zelcha e Eden Rabin produziu esse disco, que até hoje é considerado como um dos melhores do novo século, dentro das várias esferas do Metal.

Mabool: The Story Of The Three Sons Of Seven é o terceiro álbum Orphaned Land. O conceito gira em torno do grande dilúvio bíblico e da consequente divisão das três religiões abraâmicas: O cristianismo, o judaísmo e o islamismo. As canções são relaxantes e potentes e emocionais. Cada um por si, uma pequena obra-prima.

Destaque absoluta para a faixa 01, Birth Of The Three (The Unificcation) e para a faixa 03, The Kiss Of Babylon (The Sins), que, juntas, englobam tudo o que está presente no CD. Cantores israelense, declamando cânticos religosos populares, em meio a uma tempestade de flautas, instrumentos de corda, e os vocais precisos de Kobi, que passeiam entre o gutural e o mais suave dos tons.

O disco é cantado em hebráico e em inglês, tornando a sonoridade ainda mais peculiar e interessante. Esse disco foi um marco na carreira da banda, que depois do mesmo, se viu alçada a um novo patamar dentro do Metal, entrando no Hall dos grandes.

Uma absoluta obra-prima da música. Um dos meus discos favoritos, que merece ser apreciado.

The Story Of Three Sons of Seven

The Mars Volta - Tremulant (2002)

Que o Mars Volta é uma das bandinhas mais contraditórias, questionadas, ora superestimada, ora subestimada, quem conhece sabe. Muitos os criticam pelo caos que criaram em seus álbuns, com suas melodias quebradas, sons agudos, batidas inconstantes e alucinadas, letras desconexas e até o uso de falsetes por parte Cedric Bixler-Zavala, que junto com Omar Rodriguez-Lopez formou a banda, após a saída de ambos do At The Drive-In por divergências criativas (os demais membros formaram o Sparta).

O Tremulant foi o EP que os apresentou ao mundo. Ele abre com uma introdução percurssiva de dois minutos em "Cut That City", para explodir repentinamente. É o início da indisciplinada harmonia da banda. Eles abusam do uso de distorções nos vocais no meio da música e de ecos nos vocais do refrão. Depois disso, vem "Concertina", que começa lenta para depois explodir num refrão vigoroso. Após o refrão, mais uma característica da banda que eles carregaram nos outros álbuns: letras em espanhol. Nova explosão do refrão, seguida por um dos vários riffs complicadíssimos de Rodriguez-Lopez.

Fechando o EP, vem minha faixa preferida: "Eunuch Provocateur" e seus quase 9 minutos. Ela começa com um riff firme e repetitivo, pára para um sampler de um antigo disco de vinil que a banda utilizou e explode numa porrada. Destaque para o teclado, que dá o ar jazzístico da música. Aqui, a bateria não é tocada; ela apanha. No fim da música, novo sampler. Dessa vez, da canção popular "Itsy Bitsy Spider", tocada de trás pra frente.

Eu encaixaria esse EP entre o "Frances The Mute" e o "De-Loused In The Comatorium", na minha lista de preferência, pelo simples fato de suas 3 músicas serem excelentes.

01. Cut That City
02. Concertina
03. Eunuch Provocateur

The Mars Volta - Tremulant

Rammstein - Liebe Ist Für Alle Da (2009)

Finalmente! A espera terminou. Depois de muito disse-me-disse, o Rammstein apareceu.

E depois de dois álbuns com muita experimentação, o Rammstein digere bem o que aprendeu e retorna para uma linha mais próxima do excelente 'Mutter' neste 'Liebe ist für alle da' ou simplesmente LIFAD. A comparação com 'Mutter' é injusta para uma banda que sempre explorou muito bem as possibilidades sonoras criadas por Flake Lorenz e companhia, mas é a referência mais notável nas onze faixas, que soam tão variadamente como o Dimmu Borgir em 'In Sorte Diaboli' e o RUSH em 'Snakes & Arrows' (o riff de Roter Sand evoca instantaneamente Bravest Face do trio canadense).

'Rammlied' abre o álbum com a precisão característica dos alemães, com coro no refrão e um riff direto e poderoso. 'Ich Tu Dir Weh' inicia com um teclado suave e segue alternando levadas muito pesadas e um tema principal que é, na medida do possível, suave. 'Waidmanns Hail' é direta, numa pegada de marcha militar que lembra 'Links 2-3-4'. Já 'Haifisch' começa como uma releitura do tema que abre o primeiro disco do sexteto alemão, resgatando muito do estilo característico dos dois primeiros álbuns da banda.

'B********' lembra a fenomenal 'Mein Teil', com o teclado criando um clima de horror e os vocais transitando entre sussurros e o refrão urrado. 'Fruhling in Paris' traz um belo trabalho de cordas, com Till interpretando a letra de maneira bem suave, como em algumas canções do 'Rosenrot'. Mais uma das canções baseada em fatos reais, 'Wiener Blut' trata do caso do austríaco Josef Fritzl, o pai incestuoso que teve sete filhos com sua filha mais velha, mantida em cativeiro num porão durante 24 anos.

'Pussy' é o primeiro single do álbum e fala sobre turismo sexual. Cantada em inglês e alemão, teve seu videoclipe divulgado através de um site de hospedagem de vídeos pornográficos, dado o conteúdo sexualmente explícito. A canção-título é a mais curta do álbum e passa como um dos momentos menos inspirados do trabalho. O disco se fecha com duas canções que flertam com o quê o Rammstein faz de mais parecido com uma balada, como também terminava seu álbum anterior, mas sem o brilhantismo de 'Los' ou 'Amour'.

LIFAD não é o melhor álbum do Rammstein, mas é maduro e consistente, fazendo jus ao alto nível de todos os lançamentos da banda. Resta torcer para que a turnê deste sexto disco dos alemães os traga de volta ao Brasil, desta vez como atração principal. E este que vos fala, estará lá.


Liebe Ist Fur Alle Da

Top 30 | #28 | Prodigy - The Fat Of The Land (1997)


Enfim, o homem colocou um disco decente aí. O Perfect Circle, diria, é um Tool mais acessível, saindo de temas como filosofia oriental, essência humana e aliens para uma atmosfera mais medieval, antiga. Brevemente, eles aparecerão de novo aqui.

Quando era jovem, nutria um preconceito terrível pela chamada música eletrônica e suas vertentes, o tecnô, o house, o drum n' bass, sasporras. Muito disso veio da insuportável Jovem Pan e Suas Sete Melhores. Então, tudo o que se ouvia era Scatman John, Corona, Haddaway e Double You. E isso, convenhamos, era um lixo. Então, pra mim, se não tinha guitarra - como já dissera em outro post - não prestava. Tinha que ser sujo e pesado (não um XXX, ncecessariamente). Em meados de 97, 98, eu já estava enveredando pro lado do industrial, depois de ouvir a trilha de O Corvo, com Gravity Kills e Machines Of Loving Grace, e de conhecer Trent Reznor. A mistura do eletrônico com o rock começou a soar redonda.

Então, pra curtir o Prodigy nem foi tão difícil. Era eletrônico? Sim. Mas tinha peso, inclusive até algumas guitarras. Mas, mais que o peso dos instrumentos, havia a atmosfera suja, junkie e subterrânea. Quando "Breathe" estourou, foi uma revolução na minha cabeça. Do visual dos caras ao visual do próprio clipe, passando pelo som cadavérico dos sujeitos. O baixo frenético e alto, a batida seca e a guitarra distorcida do refrão transformavam aquilo num... rock.

"Firestarter" foi outra que pipocou, e seguia a mesma linha da primeira. O sotaque fortíssimo de Keith Flint, a batida alucinante e um instrumental que muito lembra um amedrontador zumbido de inseto faziam dela uma música pouco apropriada para pistas de dança. Caso tocasse numa pista de dança, pouco se conseguiria em termos de flerte.

Mas a verdadeira polêmica girava em torno da faixa que abre o disco, "Smack My Bitch Up". A introdução da guitarra já dá o tom da música. Mais pesada que ela, só o clipe. Filmado em primeira pessoa, contém cenas de agressão, aplicação de drogas, direção irresponsável, nudez e sexo, tendo sido proibido em uma porrada de países. E onde é liberado, o clipe só pode passar depois de 0h. Não sei se esse tipo de repressão funciona. Pra mim, serve mais para instigar e dar más ideias.

Excelente disco. Um divisor de águas do gênero, na época. E pra fazer uma banda de eletrônica participar de festivais de rock mundo afora e ser bem-recebida, tem que ser bom mesmo.

01. Smack My Bitch Up
02. Breathe
03. Diesel Power
04. Funky Shit
05. Serial Thrilla
06. Mindfields
07. Narayan
08. Firestarter
09. Climbatize
10. Fuel My Fire

Prodigy - The Fat Of The Land
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